Gattaca, Experiência Genética. Seleção, Ética e Eugenia.

Cartaz do filme

Cartaz do filme

O Cineclube Sci Fi encerrou a sua temporada de 2015 com chave de ouro, e exibiu no último dia 17 de outubro o filme “Gattaca, Experiência Genética”, realizado no já longínquo ano de 1997. “Gattaca” pode ser descrito como um daqueles filmes em que não se sabe mais onde termina a ficção e começa a realidade. Vamos descortinar agora todas as questões e reflexões que essa interessante película nos traz.

Vemos aqui uma história que ocorre num futuro não muito distante. Um jovem casal tem um filho numa época em que um simples exame de sangue ao nascimento já faz um mapeamento de todas as pré-disposições genéticas da criança. Coisas simples como cor dos olhos, da pele e dos cabelos, assim como as probabilidades de desenvolvimento de algumas doenças. Pois é. Esse novo bebê nasceu marcado negativamente por ter uma genética “ruim” e uma expectativa de vida de apenas cerca de trinta anos.

Vincent, um não-válido

Vincent, um não-válido

Esse mapeamento o condenaria e figurar na categoria de humanos “não válidos”, que estariam descartados de qualquer atividade considerada mais “nobre” como postos onde se requerem maior inteligência e condicionamento físico (algo destinado aos geneticamente “válidos”) restando-lhes apenas ocupações de menor importância e subalternas. Assim, os não-válidos eram tratados como humanos e cidadãos de segunda categoria. Ainda desolados com o destino do filho, que foi chamado de Vincent Freeman (interpretado por Ethan Hawke), os pais decidiram escolher um embrião geneticamente perfeito num banco de embriões para ter um filho válido, que logo mostrou ser superior a Vincent. O menino não aceitou tal condição de inferioridade e tentou, com seu esforço, ser alguém. Mas tal seleção “artificial” que, em alguns momentos beirava a eugenia, lhe fechou todas as portas, deixando clara a discriminação dessa sociedade contra os geneticamente imperfeitos, ou “filhos de Deus”, ou ainda os de-gene-rados. Assim, Vincent conseguiu emprego apenas como faxineiro numa instituição científica privada de nome “Gattaca” que enviava humanos obviamente válidos para missões no espaço.

O coitado só conseguiu emprego como faxineiro. Lá atrás? Isso mesmo!!! Ernest Borgnine!!!

O coitado só conseguiu emprego como faxineiro. Lá atrás? Isso mesmo!!! Ernest Borgnine!!!

O sonho de Vincent sempre foi ir ao espaço e ele faria de tudo para conquistar o seu sonho. Mas, para isso, ele teria que falsificar sua identidade e, mais do que isso, seu próprio corpo. Ele teve acesso a uma espécie de falsificador (interpretado por Tony Shalhoub, o detetive Monk da série de tv) que lhe apresentou ao válido Jerome Eugene Morrow (interpretado por Jude Law). Jerome ficou paraplégico ao sofrer um acidente de carro e, inutilizado, só aceitava ser chamado de Eugene, numa fina ironia. O trato seria o seguinte: Vincent assumiria a identidade de Jerome para ser considerado válido e obteria um posto de maior importância em Gattaca. Como os critérios de identificação eram muito severos, onde testes genéticos  de sangue, urina, pêlos de cabelos e pedaços de unha eram feitos, Jerome proveria Vincent de amostras de seu corpo que o falso válido usaria nas várias identificações de rotina. Em troca disso tudo, o falsificador e Jerome receberiam uma parte do salário de Vincent. O plano estava correndo muito bem, até que o diretor do programa espacial é assassinado e a polícia começa uma investigação, colocando em risco a identidade falsa de Vincent. Para sair desse rolo, o falso válido contará com a ajuda da válida e belíssima Irene Cassini (interpretada pela igualmente belíssima Uma Thurman).

Jerome vai "emprestar" sua identidade a Vincent

Jerome vai "emprestar" sua identidade a Vincent

Quando se fala de genética, logo vem a reboque, de forma inevitável, a questão da ética. Se hoje em dia existe toda uma polêmica religiosa em torno do uso de células-tronco, a discussão de “Gattaca” girou mais em torno de como uma seleção artificial de humanos pode levar a situações de preconceito, onde a temática da eugenia se faz bem presente. É nesse momento em que ficção e realidade se misturam, pois esses testes genéticos já começam a fazer cada vez mais parte de nossa realidade e discussões sobre as implicações morais e éticas dos usos dos resultados desses testes pipocam nas sociedades atuais.

O filme não pareceu querer se posicionar com relação ao uso da genética, ou seja, não a glorificou nem a demonizou. Mas mostrou os prós e os contras do uso desse conhecimento e deixou para que o espectador tirasse sua própria conclusão, se é que há alguma.

Irene vai ajudar Vincent a encobrir sua verdadeira identidade

Irene vai ajudar Vincent a encobrir sua verdadeira identidade

É claro que não se deve usar a genética para alimentar preconceitos, isso ficou bem claro. Outro detalhe que se mostrou interessante foi o fato de que nem sempre um válido terá uma vida frutífera. Na verdade, Jerome não sofreu um acidente, ele tentou se matar. Já Irene, considerada uma válida, tinha problemas de saúde. Em contrapartida, nosso não-válido Vincent, se concentrou nos estudos e nos exercícios físicos para vencer suas limitações. E a prova maior disso foi quando ele passou a vencer os desafios de natação com seu irmão válido. Ou seja, nem sempre a pré-disposição genética funciona. Mas, ao mesmo tempo, fica a questão: para missões espaciais, a seleção artificial é necessária, pela própria natureza da missão. Nenhuma pessoa com probabilidade alta de ataque cardíaco pode fazer parte de uma missão que vai durar anos e vai requerer um certo esforço físico. Assim, a seleção artificial era necessária para o contexto do filme, mas ainda assim, ela poderia trazer consigo a perigosa ameaça da discriminação e eugenia.

Xiiii...

Xiiii...

Após a exibição do filme, tivemos duas palestras. O primeiro palestrante foi Gerson Lodi-Ribeiro, graduado em Engenharia Eletrônica e Astronomia pela UFRJ, sendo autor de duas noveletas na edição brasileira da Revista Isaac Asimov Magazine: a FC Hard “Alienígenas Mitológicos” e a história alternativa “A Ética da Traição”, além de outros textos de ficção científica. A outra palestrante foi Carolina Moreira Voloch, graduada em Ciências Biológicas, bacharel em Genética, pela UFRJ, com mestrado, doutorado e pós-graduação em genética, também pela UFRJ. Tem experiência nas áreas de Reconstrução Filogenética Molecular, estimativas de tempos de divergência a partir de dados moleculares, e utilização de ferramentas de bioinformática aplicadas à evolução molecular. Os dois palestrantes combinaram previamente que Gerson falaria mais da parte de cinema, ao passo que Carolina falaria mais da parte científica. Gerson começou sua palestra dizendo que o filme inicialmente se chamaria “O Oitavo Dia”, numa alusão aos seis dias que Deus trabalhou e o sétimo que descansou. O oitavo dia seria o do desenvolvimento da genética pelo homem. O problema é que um filme holandês tinha o mesmo tipo na época. Quanto ao novo título, “Gattaca”, uma das explicações ventiladas sobre o título do filme é que ele seria uma sigla de uma sequência genética formada pelos elementos constituintes do DNA (adenina, guanina, citosina e timina). Gerson ainda atentou para o fato de que o roteirista e diretor Andrew Niccol é o mesmo diretor de “A Hospedeira” e roteirista do “Show de Truman”, filmes com temáticas igualmente polêmicas. O palestrante ainda vai recordar que “Gattaca” se passa numa empresa privada que faz voos espaciais e não fica claro em que país está, num indício de uma sociedade globalizada. O filme é uma ficção científica distópica, ao bom estilo biopunk, numa discriminação genética que cria duas castas. Um livro que se aproxima de tal abordagem é “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, onde havia cinco castas.

Gerson Lodi-Ribeiro, palestrante

Gerson Lodi-Ribeiro, palestrante

Gerson ainda lembra que a seleção genética brutal do filme é para um programa espacial e a NASA faz algo parecido na vida real, embora sem usar a eugenia, mas usando severos testes físicos. Sobre o fato da “melhor” casta ter as melhores oportunidades, Gerson disse que tal situação ocorre na Índia, por exemplo. Ainda, o tema da genética já foi muito abordado na ficção científica, onde “Frankenstein”, de Mary Shelley seria, segundo o palestrante, a obra fundadora, passando por Huxley e chegando a temas como a modificação de seres humanos para viver em biosferas de outros planetas e o acesso ao aprimoramento genético para todos.

Carolina começa sua palestra dizendo que o filme chamou sua atenção em três pontos. O primeiro é o fato de que, assim como na película, já existem ferramentas moleculares genéticas para identificação das pessoas, mesmo que as ferramentas reais não sejam tão desenvoltas quanto às do filme.

Carolina Voloch, palestrante

Carolina Moreira Voloch, palestrante

Em segundo lugar, ela atenta que os indivíduos são selecionados e não geneticamente modificados (no caso do irmão de Vincent, o que ocorreu foi a seleção artificial do melhor embrião por parte dos pais). E, em terceiro lugar, fica claro que nem sempre a genética determina pré-disposições a doenças com precisão, já que em alguns casos como câncer, ataques cardíacos e diabetes, ela estima apenas uma probabilidade de ocorrência. É por isso que não se podia condenar previamente Vincent a uma vida de casta subalterna, ao passo de que não se poderia garantir que Jerome tivesse uma vida de sucesso. A discriminação genética os colocaria de antemão aos papéis que as probabilidades os haviam “determinado”, mas outros fatores externos acabaram influenciando a vida destes indivíduos que tomaram caminhos totalmente opostos aos que lhes foram traçados. Se a genética pode indicar quem é mais pré-disposto a viajar pelo espaço, ainda assim há uma seleção artificial, que pode levar a um preconceito contra quem teria mais probabilidade de ocorrência de doenças. Carolina lembrou sabiamente do fato de como nossos planos de saúde reagiriam de posse dessa informação? Assim, o uso da genética pode trazer vantagens de um lado, mas problemas de outro.

Após todas essas discussões, podemos perceber que a última sessão do Cineclube Sci Fi de 2015 manteve o nível das sessões anteriores e deu um desfecho digno a um evento que já ocorre no Planetário da Gávea há três anos. Que o próximo ano seja igual ao que passou, com muitos filmes interessantes e discussões primorosas. E, se você ainda não apareceu por lá, dê uma chegadinha!

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