Do tempo em que “Star Wars” era “Guerra Nas Estrelas”

Alguns fãs mais antigos de “Star Wars” têm o hábito de chamar a saga de George Lucas no título traduzido em português, “Guerra nas Estrelas”. E por que isso? Como esse fenômeno cultural já tem mais de três décadas de vida, temos verdadeiras gerações de fãs. Os mais novos conheceram os filmes nas exibições de TV, VHS, DVD e, mais recentemente, blu-ray. O contato com o cinema veio com as cópias remasterizadas dos episódios IV, V e VI, onde efeitos de computação gráfica foram adicionados, (modificando um pouco as coisas) e com os episódios I, II e III. Assim, o “Star Wars” se consolidou para essa geração mais nova, que ainda teve o auxílio de vários produtos consumíveis como jogos, brinquedos, livros, etc. Um universo muito acessível aos fãs.

Nada disso existia para os que chamavam o filme de “Guerra nas Estrelas”, lá pelos idos do final da década de 1970. Isso mesmo, caro leitor! O gigantesco tema “Star Wars” naquela época se resumia a apenas um filme para os fãs, o episódio IV. Nada de joguinhos eletrônicos domésticos. A gente ainda ia aos famosos flippers. Nada de brinquedos sobre a saga. Nada de VHS, um tipo de mídia disponível só nas emissoras de TV, ainda em seu estágio inicial. Nas nossas mentes, apenas a memória do filme, revistas e recortes de jornal. Uma época muito diferente, em que o pouco acesso a materiais do filme só aguçava ainda mais a nossa curiosidade.

“Guerra nas Estrelas” e não “Star Wars”, já que, antigamente não havia um anglicanismo violento como vemos hoje em nossa sociedade, entrou atropelando tudo pela frente. Me lembro de um programa na extinta TV Tupi (que no Rio de Janeiro era no canal 6), apresentado toda semana por um dublador de filmes gordinho que falava das estreias cinematográficas. Ele falou com alarde sobre um grande filme que estrearia, um filme que não se parecia com nada que já tinha sido feito. E aí, disse o nome: “Guerra nas Estrelas!”. Foi a primeira vez que tive contato com esse Universo. Naves espaciais dando tiros de laser contra as outras em batalhas no espaço. Muito me impressionou os caças imperiais em formato de carretel. Os duelos entre Darth Vader e Obi Wan Kenobi com os sabres de luz chamaram muito a atenção. O Fantástico exibiu uma matéria falando sobre o filme, mostrando várias imagens, como a cena inicial do gigantesco cruzador imperial. Tudo aquilo era muito novo. Jamais um filme havia abordado aquele tipo de assunto juntamente com aqueles efeitos especiais, que foram de um impacto visual enorme e o grande cartão de visitas. A figura de Darth Vader também impressionava. Um vilão todo negro, à moda antiga, mas ao mesmo tempo, com uma cara robotizada, metalizada, totalmente desumanizada, uma nova alegoria para o mal. Os anos eram outros e as visões de violência também. Hoje pode parecer uma coisinha boba, mas o ato de Vader de pisar nas roupas de Kenobi depois de matá-lo e seu corpo desaparecer foram encaradas como o supra-sumo da maldade. Chocavam mesmo. O mais curioso foi que, cerca de trinta anos depois da estreia de “Guerra nas Estrelas”, eu exibi esse filme como uma aula para meus alunos da Educação de Jovens e Adultos e uma das minhas alunas (já adulta e mãe, vale ressaltar), que nunca tinha visto o filme, teve as mesmas reações que tivemos três décadas atrás no momento em que Vader mata Obi Wan e pisa na sua roupa. Atemporalidades? Pode ser…

Outra sequência que muito chamou a atenção foi o momento da destruição da Estrela da Morte. Dá para vocês imaginarem a quantidade de spoilers veiculados na mídia quando da ocasião do lançamento de “Guerra nas Estrelas” pelo ineditismo da coisa. Entretanto, não me lembro de ter visto a sequência final do filme antes de ir ao cinema. As imagens das naves rebeldes entrando na vala (do ângulo de visão dos X-Wings, ou asas X), mais a explosão dos X- Wings no interior da vala eram de um realismo extremo. Algo real sobre o irreal, por mais estranho que possa parecer. O fim do filme, com a condecoração de Luke Skywalker e Han Solo por Leia Organa, coroou a história como uma superprodução, um filme de aventura e ação, um conto de fadas espacial, com direito até a lutas com espadas.

Foi realmente um grande impacto ver um filme desses no fim da década de 1970 (idos de 1977, 1978). A geração “Star Wars” nasceu com um cinema de efeitos visuais altamente elaborados. Para essa geração mais nova, efeitos especiais e cinema são praticamente a mesma coisa. Mas antigamente não era assim. E os efeitos especiais no cinema começaram a ter muito peso com o episódio IV. A geração “Guerra nas Estrelas” viu isso nascer.

E logo após toda a emoção provocada nas pessoas pelo filme, veio a pergunta inevitável. Como ele foi feito? A geração “Star Wars” sabe que a computação gráfica hoje resolve tudo. Mas, naquela época, não havia isso. As coisas eram feitas na unha, mesmo. E logo tivemos um Globo Repórter explicando como foram criados os efeitos especiais. Lembro-me da gigantesca maquete com a superfície da Estrela da Morte, sendo bombardeada com explosivos lançados de um carro que passava ao lado e tudo sendo filmado. Lembro-me de pessoas batendo em pedaços de ferro, obtendo sons agudos que depois seriam os sons dos tiros de laser. Lembro-me até dos primeiros brinquedos e roupas comercializados nos Estados Unidos, ainda bem tosquinhos. Cenas de making of, onde Darth Vader matava Obi Wan (no início, se fez com um boneco, mas não deu certo). Realmente, os efeitos especiais chamaram muito a atenção. A história em si, da luta dos rebeldes contra o Império Galáctico, da destruição dos jedis, tudo isso veio depois. Foi mais bem trabalhado nos filmes seguintes. A noção de força, no entanto, já era bem explorada no episódio IV, como qualquer fã de “Guerra nas Estrelas” (e “Star Wars”) sabe.

O que é mais interessante em toda essa discussão é o fato de que um filme que quase não saiu deu origem a todo esse universo amado por duas gerações de pessoas. “Guerra nas Estrelas” surgiu como uma grande novidade, nos velhos cinemões de bairro (o Roxy, de Copacabana, onde vi o “Retorno de Jedi” numa cópia 70mm – experiência incrível, diga-se de passagem – tinha cerca de 1200 lugares, antes de ser dividido em três salas), revolucionou o cinema no que se refere aos efeitos especiais, e chegou às novas gerações de Home Vídeo e cinemas de shoppings como “Star Wars”.

E uma nova saga vem por aí. Mais três filmes que serão combustíveis para mais uma geração? Só o tempo dirá. De qualquer forma, eu, como amante do cinema que sou, me orgulho de dizer que vi o episódio IV no cinema quando ele aqui passou na década de 1970 e isso foi fundamental na minha constituição como cinéfilo convicto. Sou um membro da geração “Guerra nas Estrelas”, que busca estar antenado com a geração “Star Wars” e, aguardando ansiosamente a sequência dessa história que está nas mãos de J.J. Abrams e da Disney, não sem ficar com um certo friozinho na barriga…

Ah! Lembre como era a abertura de “Guerra nas Estrelas” na dublagem de Francisco Milani para a Herbert Richards, nos anos 80.

2 Comments

  1. gmfigueiredo93525900
    O nome do especial do Globo Repórter era "Guerra de Truques". Me lembro da chamada do Sergio Chapelen, destacando o uso das maquetes. "Guerra nas Estrelas" eu assisti no Roxy, mas no chão porque os cerca de 1200 lugares do cinema estavam cheio (naquela época podia assistir no chão). "Império Contra-Ataca" eu vi no Rian, um cinema na praia de Copacabana que acabou faz tempo, e "Retorno de Jedi" eu também vi no Roxy, só que sentado desta vez. Tinha ganho o ingresso numa promoção para a estréia do filme.
  2. areno62
    Minha história com Star Wars começa no final de 1977, onde eu lia notícias no jornal a respeito do enorme sucesso do filme pelos EUA. Na época tinha 15 anos, e confesso que ficava antipatizado com tanta euforia dos americanos por causa de um filme, apenas. Cambada de malucos fanáticos... Em fevereiro de 1978, após a estréia no Rio, não fiz questão de assistir de imediato o filme, mas comprei o LP, meu primeiro álbum duplo. Coloquei na vitrola e não achei que uma orquestra combinaria com um filme tão avançado, como diziam. Não gostei da trilha sonora. Ou seja, tudo estava me levando a desprezar o tal de Guerra nas Estrelas. Após duas semanas de exibição, fui assistir no cinema São Luiz (Largo do Machado). Logo na cena inicial, com aquela nave monstruosa passando por cima da minha cabeça, eu me afundei na poltrona e, a partir deste momento, virei fanático doente. Até hoje, ainda bem! Eu me lembro desse gordinho da TV Tupi. Até gravei em fita K7 seu comentário a respeito do filme Star Wars - Guerra nas Estrelas, onde ele afirmava que "embora não seja um filme que possa ligar com muito entusiasmo os adultos, ele provoca uma grande curiosidade nas crianças...". Como faço para postar o áudio, que já foi transformado em MP3, neste local? Abraços!

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