O Que Rolou No Cineclube Sci Fi de 19 de Novembro (“Gravidade”).

No último dia 19 de novembro, o Cineclube Sci Fi teve mais uma seção no Planetário da Gávea, desta vez trazendo o filme “Gravidade”, dirigido por Alfonso Cuarón e estrelado por Sandra Bullock e George Clooney. Esse filme ganhou sete Oscars na cerimônia de 2014 (fotografia, direção, montagem, mixagem de som, edição de som, efeitos visuais, trilha sonora), e ainda foi indicado para mais três categorias (filme, atriz para Sandra Bullock e design de produção). Foi um filme muito comentado à época de toda a sua premiação. Mas será que ele é isso tudo mesmo?

Cartaz do Filme

O filme começa com um letreiro dizendo das condições inóspitas do espaço (violentas variações de temperatura, oxigênio zero, impossibilidade de vida, silêncio absoluto). Um som que aumenta o volume progressivamente até tornar-se ensurdecedor desaparece subitamente com uma imagem do planeta Terra. Aí vemos astronautas trabalhando no telescópio espacial Hubble acoplado a um ônibus espacial. Os astronautas são Ryan Stone (interpretada por Bullock) e Matt Kowalski (interpretado por Clooney). Eles consertam o grande telescópio quando recebem a informação do controle da missão (cuja uma das vozes é de Ed Harris) que um míssil russo acertou um de seus satélites e isso provocou uma reação em cadeia, destruindo mais satélites e gerando uma ameaçadora nuvem de lixo espacial, que acertou o ônibus espacial em cheio e deixou nossos astronautas à deriva no espaço. Eles foram em direção à Estação Espacial Internacional (Kowalski tinha uma mochila propulsora), mas somente Ryan entrou. Os dois chegaram à Estação com a mochila de Kowalski sem combustível e a perna de Ryan se enrolou na corda do para-quedas de um módulo de uma Soyuz acoplada à Estação. Ryan segurava Kowalski e este pediu para soltá-lo, pois uma força que não era para estar ali o puxava e Ryan ia se soltar da corda do para-quedas que estava frouxa. Assim, a moça soltou o astronauta que ficou à deriva no espaço e desapareceu. Ryan, então, conseguiu entrar na Estação. Isso foi um erro sério no filme, pois não devia haver nenhuma força puxando Kowalski a ponto dele pedir para que Ryan o soltasse. Enfim… a partir daí, Stone teria que pilotar uma Soyuz incapacitada de fazer a reentrada para outra estação espacial chinesa e aí sim fazer a reentrada com outro módulo acoplado à estação, o que gerou mais situações espinhosas e algumas situações fisicamente inusitadas.

Perdida no espaço

Bom, a grande questão desse filme foi o limite entre a realidade do ponto de vista da física e a liberdade poética. O cinema jamais tem qualquer compromisso com a realidade, mas até que ponto se força uma barra nisso? Houve uma preocupação toda especial de Cuarón de reproduzir o que se acontecia no espaço sideral num ambiente de gravidade zero, mas houve também uma série de problemas nisso, como, por exemplo, corpos flutuando sem proteção no vácuo (eles explodiriam se isso acontecesse, já que nossos corpos estão adaptados para viver sob pressão atmosférica), o sacrifício totalmente desnecessário de Kowalski, pois Stone poderia facilmente puxá-lo para sua direção naquela situação sem desprender sua perna da corda, o uso do extintor de incêndio para se dirigir à estação espacial chinesa, o fato do lixo espacial destruir o ônibus espacial, que é muito menor que a Estação Espacial Internacional, que sofreu poucas avarias num primeiro momento, etc. Essas coisas realmente incomodaram um pouco para um filme que pretendia ser relativamente fidedigno ao que acontece no espaço. Mas, como há a liberdade poética e uma história com lances espetaculares tinha que se desenvolver, que venha a liberdade poética para aquecer aos nossos corações!

Esse corpo devia ter explodido

Após a exibição do filme, tivemos a tradicional palestra. Desta vez os palestrantes foram Erika Rossetto, astrônoma que trabalha na Embratel e estuda a questão do lixo espacial em órbita e seus perigos para satélites e estações espaciais, e Carlos Voltor, cineasta e estudioso de cinema. Rossetto começou sua palestra se lembrando do Sputnik, primeiro objeto colocado em órbita pelo homem. A seguir, ela mostrou que existem três tipos de órbita: a baixa, de até 1000 km de altitude, a intermediária, de 1000 a 2000 km de altitude, e a alta, que pode ir até 36000 km de altitude, geralmente onde ficam os satélites de comunicação, e que não estariam no nível do ônibus espacial ou das estações espaciais, como foi exibido no filme. Ela ainda falou que o problema dos acidentes entre satélites e a produção de lixo espacial são mais antigos do que se imagina, começando já no início da corrida espacial na década de 60. E que esses acidentes geram tantos detritos que a proporção entre lixo espacial e objetos com vida útil é altíssima, tendendo a aumentar cada vez mais, pois quanto mais detritos, maior é a probabilidade de se provocar novos acidentes que vão provocar novos detritos e assim por diante. Rossetto ainda mencionou que algumas medidas de segurança estão sendo pensadas e providenciadas como, por exemplo, a reentrada de satélites de órbita baixa ao fim de sua vida útil ou a migração de satélites geoestacionários a altas órbitas para uma espécie de “órbita cemitério”.

Clooney por um fio

Já o segundo palestrante, Carlos Voltor, atentou para um interessante elemento: o filme “Gravidade” é menos um filme de ficção científica que um filme que aborda o renascimento na adversidade. A personagem de Sandra Bullock, Ryan Stone, estava desgostosa com sua vida, pois havia perdido a filha de uma forma inusitada e muito traumática. Tal situação adversa somente será superada quando aparece uma adversidade maior ainda, que é a sobrevivência no espaço depois de um grave acidente. Assim, a personagem recuperará a sua vontade de viver quando vê a sua própria vida fortemente ameaçada. O “renascimento” de Ryan é simbolizado por sua posição fetal quando ela finalmente consegue entrar na Estação Espacial Internacional depois de quase sufocar em seu traje de astronauta com o oxigênio em níveis críticos. Essa forte vontade de viver também se manifesta no personagem de George Clooney, Matt Kowalski, cuja forte presença de espírito foi altamente inspiradora para Ryan. Os atos da personagem de Bullock de sair da cápsula mergulhada num lago e engatinhar na beira do mesmo depois de voltar à superfície do planeta simbolizam mais uma vez esse renascimento de uma pessoa desgostosa com a vida numa pessoa que luta por sua sobrevivência, recuperando a vontade de viver. Voltor ainda se lembrou de que o filme demorou mais de quatro anos para ser feito, muito em virtude da dificuldade de se simular a gravidade zero em algumas cenas. Como um exemplo, no filme “Apolo 13”, as situações de gravidade zero foram filmadas em aviões que vão bem alto na atmosfera e depois ficam em queda livre, simulando um ambiente de gravidade zero que dura alguns segundos. Como a película de Cuarón tinha cenas de gravidade zero com uma duração muito maior do que alguns segundos, toda uma tecnologia teve que ser criada, onde muitos fios foram usados, assim como uma iluminação de quatro mil lâmpadas de leds em volta de Bullock.

Não solta o Clooney não, Bullock!!!

Após as palestras, a sessão de perguntas do público abordou vários temas, dentre eles justamente os limites entre a realidade e a liberdade poética de um filme que se propunha ser o mais fiel possível nos ambientes de gravidade zero. E, depois, o tradicional sorteio. Mais um bom filme, mais boas palestras e discussões muito frutíferas sobre ciência e cinema. Se você ainda não teve a oportunidade de presenciar uma sessão do Cineclube Sci Fi, não deixe de comparecer ao próximo neste ano de 2017. E você pode ver o vídeo da palestra em www.facebook.com/jedirio

Posição fetal. Renascimento da personagem.

No Comments Yet.

Leave a comment

You must be logged in to post a comment.