O Que Rolou No Cineclube Sci-Fi de 21 de Maio (“Guerra Nas Estrelas, Episódio I, A Ameaça Fantasma”).

No último dia 21 de maio, houve mais uma edição do Cineclube Sci-Fi. Como é de hábito, em todo mês de maio, há a exibição de um filme da saga “Guerra nas Estrelas”. E, dessa vez, foi exibido o que é, provavelmente, o filme mais controverso de todos da saga: o mal amado “Episódio I, A Ameaça Fantasma”. Essa película ficou muito estigmatizada, pois lhe foi imputada uma enorme responsabilidade: a de retomar a saga de “Guerra nas Estrelas”, depois de mais de uma década de espera dos fãs, sendo que muitos preferiam ver o “Episódio VII” ao “Episódio I”. Ou seja, talvez tenha havido uma má vontade prévia por parte dos fãs quanto à famosa trilogia “prequel”. Mas, mesmo assim, era um “Guerra nas Estrelas”, e muita expectativa existia com relação a esse filme na época de seu lançamento.

Qui-Gon Jinn e Obi Wan Kenobi, os protagonistas

Qui-Gon Jinn e Obi Wan Kenobi, os protagonistas

O que foi que deu errado, então? Há muitas explicações e justificativas, e vamos aqui tentar analisar o que aconteceu em torno de “A Ameaça Fantasma” para entendermos melhor o que rolou em torno desse filme e da trilogia ao qual ele faz parte.

Do que se trata a história do filme? Um pequeno planeta da orla exterior da galáxia, Naboo, está subjugado por uma tal Federação Comercial, que lhe quer impor um tratado comercial altamente abusivo. O planeta pacífico, democrático e desmilitarizado está ocupado pelas forças militares da Federação de Comércio, que tem um exército de dróides. Dois embaixadores da República são enviados para resolver a crise. Eles são os Cavaleiros Jedi Qui-Gon Jinn (interpretado por Liam Neeson) e Obi-Wan Kenobi (interpretado por Ewan McGregor). Ao chegarem lá, eles sofreram um ataque dos dróides e tiveram que fugir para Naboo, onde conheceram Jar Jar Binks (personagem virtual interpretado por Ahmed Best), um nativo trapalhão (e odiado por praticamente todos os fãs de “Guerra nas Estrelas”) que vai ajudá-los a se encontrar com a rainha de Naboo, Amidala (interpretada por Natalie Portman). A ocupação da Federação de Comércio põe em risco a rainha, que foge do planeta com a ajuda dos cavaleiros jedis. A nave com a rainha é obrigada a fazer um pouso forçado em Tatooine, onde os jedis conhecem o jovem Anakin Skywalker (interpretado por Jake Lloyd). Qui-Gon Jinn sente que o garoto tem algo de muito especial (além de ter uma baita contagem de midchlorians) e quer treiná-lo na filosofia jedi a qualquer custo, mesmo com a desaprovação do Conselho Jedi, sediado no planeta capital da República, Coruscant. Mas, antes disso, Jinn e seu aprendiz Kenobi terão que enfrentar a Federação de Comércio, seus dróides e um misterioso par de siths.

Darth Maul, um vilão mal aproveitado

Darth Maul, um vilão mal aproveitado

Os palestrantes desse filme foram Brian Moura e Henrique Granado, ambos do Conselho Jedi Rio de Janeiro e autores do livro “Almanaque Jedi”. Com relação ao filme, eles fizeram um rápido levantamento do que desagrada aos fãs. Eles lembraram, por exemplo, que o filme abusou dos efeitos de computação gráfica. Reclamaram, também, das atuações fracas dos atores, como Liam Neeson, um ator reconhecidamente talentoso, mas que foi muito mal aqui. Fraco também teria sido o roteiro, nas opiniões de Brian e Henrique, onde a ideia de midchlorians e o uso de um planeta isolado como Naboo ter sido o centro das atenções no filme. Ainda, um ótimo vilão como Darth Maul foi muito mal aproveitado. Outro detalhe reside na corrida de pods, que foi desnecessária, embora boa, nas palavras de Henrique. Mais um fato digno de crítica foi colocar Anakin Skywalker muito novo no filme, onde não pudemos testemunhar sua maldade latente. Eles ainda apontaram para o fato de que uma cena de briga entre Anakin e Greedo crianças teria sido cortada. Apesar das críticas, Brian e Henrique elogiaram os duelos de sabre de luz da película, onde eles opinaram que aqueles haviam sido os melhores duelos até a estreia do Episódio VII. E concluíram dizendo que a maior importância do Episódio I por aqui foi reunir os fãs, o que possibilitou a fortalecimento do Conselho Jedi Rio de Janeiro.

Jar Jar Binks, um personagem repudiado...

Jar Jar Binks, um personagem repudiado…

Bom, após essas observações mais críticas do que elogiosas, acho que podemos relativizar um pouco essa discussão. Já que o Episódio I suscita mais críticas dos fãs, até onde ele também possui virtudes? Podemos apontar algumas situações. Em primeiro lugar, o filme tem uma boa trama política. Se isso pode ser visto por alguns fãs como um problema, já que “Guerra nas Estrelas” está mais para uma fantasia espacial de ação, eu prefiro não achar isso um problema, mas sim uma virtude que ajudou a maturar um pouquinho a saga. As manipulações de Palpatine foram, a meu ver, muito interessantes. E o uso de um planeta isolado como Naboo, lá na orla exterior, não foi de todo mal, pois se lermos alguns livros do Universo Expandido como “Tarkin”, de James Luceno, havia um preconceito dos habitantes do núcleo com relação aos da orla exterior e algumas pessoas que fizeram parte do Império, como Tarkin e o próprio Palpatine, eram da orla exterior, numa mostra de que esse preconceito pode ter alimentado o golpe que derrubou a República. Indo por essa linha de raciocínio, a presença de Naboo no filme se faz mais justificável. Por sua vez, Chris Taylor, em seu “Como Star Wars Conquistou o Universo” atenta para outro fato. O conteúdo altamente político do filme fez com que houvesse uma presença maior de personagens que pertencem a uma elite (senadores, rainhas, jedis), em detrimento de pessoas de camadas sociais mais baixas, como agricultores, comerciantes e contrabandistas. Um dos motivos da graça da trilogia clássica seria essa interação entre pessoas de classes sociais diferentes, onde o caso de Leia e Solo seria o mais emblemático.

Liam Neeson. Atuação questionada

Liam Neeson. Atuação questionada

E a corrida de pods? Foi desnecessária? Talvez sim. Mas foi o melhor momento do filme, sem dúvida nenhuma. E aí não podemos nos esquecer de George Lucas sempre foi um entusiasta da velocidade até o fatídico acidente de automóvel que ele sofreu que o encaminhou diretamente para o cinema. A velocidade é um elemento sempre presente em “Guerra nas Estrelas”. E aqui, a coisa foi feita da forma mais descarada. Vários elementos de uma corrida aparecem na sequência. Os óculos de proteção dos pilotos nos remetiam aos anos mais românticos e antigos do automobilismo. O trecho de pista onde estava a linha de chegada lembrava muito os circuitos ovais de Fórmula Indy. Até os tuskens do povo de areia atacando os carros lembravam as etapas do Rally Paris-Dakar canceladas na África em virtude da guerra civil em alguns países. Até a presença de um narrador e comentarista existia por lá. Para quem gosta de automobilismo, a sequência estava cheia de “easter eggs”.

Sobre os excessivos efeitos de computação gráfica, devemos nos lembrar de que não podemos ser anacrônicos, ou seja, julgar com os olhos de hoje os feitos do passado. Na época em que o filme foi feito, o CGI era uma espécie de grande sensação e novidade. E aí, o que costumava ser dito na época era como seria legal se tais efeitos especiais pudessem ser usados em 1977 na produção de “Guerra nas Estrelas”. Lucas dizia que um dos motivos para que ele ficasse tantos anos sem fazer um novo “Guerra nas Estrelas” era o de que os efeitos especiais não tinham tecnologia suficiente para acompanhar o que ia por sua imaginação. Mas o CGI da segunda metade da década de 90 tornaria possível a realização de novos filmes. A primeira experiência em usar o CGI foi a “Special Edition”, onde CGIs foram adicionados aos filmes antigos. E, logo depois, toda a trilogia prequel foi banhada com a então nova tecnologia. Hoje, aos nossos olhos, tudo parece muito artificial. Mas não podemos nos esquecer de que, na época, a coisa foi uma tremenda de uma sensação. O mais curioso é perceber como agora nos encontros do Conselho Jedi, comentamos mais sobre as atuações dos atores e a construção dos personagens do que os efeitos especiais, exatamente o que os cinéfilos faziam décadas atrás nos tempos glamorosos do cinema, quando as pessoas iam ao cinema para ver o último filme do Clark Gable ou do Fred Astaire. Quer dizer, hoje privilegiamos os atores e torcemos o nariz para o excesso de CGIs, exatamente o que nossos avós fazem, o que configura a volta de um padrão cultural do passado ou, se especularmos um pouco mais, uma circularidade cultural à la Carlo Ginzburg, em seu “O Queijo e os Vermes” não no espaço, mas no tempo.

Bons duelos de sabre de luz

Bons duelos de sabre de luz

Sobre as atuações fracas dos atores, bem, nunca podemos nos esquecer de que George Lucas pode ser tudo, mas nunca foi realmente um bom diretor. A piada de sua única instrução aos atores (“rápido e mais intenso”) já é até uma espécie de lenda. Com relação a Liam Neeson, tudo bem que sua atuação não foi lá essas coisas em virtude dele ser mal dirigido, mas eu quero lançar outra questão aqui: até que ponto a construção do personagem também não interferiu? Será que Qui-Gon Jinn não foi a manifestação máxima da arrogância e petulância jedis? Quando vejo o filme, fica essa impressão. E aí, passamos a ver o personagem com olhos mais críticos e temos até uma certa má vontade para com ele. Logo, parece que o caso de Qui-Gon Jinn não é apenas uma questão de má interpretação por parte do ator, mas também o fato de ser um personagem com um desvio de caráter, justamente o tipo de personagem de quem apenas esperaríamos virtudes.

Quanto a um Anakin Skywalker excessivamente jovem, não parece ter sido esse um problema mais sério, pois nosso aspirante a Padawan fazia umas carinhas bem feias quando era contrariado, principalmente quando os jedis questionaram se ele era digno de ser treinado. Ali já estava uma vilania latente. Mas realmente é de se lamentar o corte da cena de briga com Greedo. Talvez o puritanismo americano não aceitasse com bons olhos uma briga infantil no filme.

Pelo que podemos constatar, “Ameaça Fantasma” é um filme que suscita muitas discussões e apenas uma certeza: a de que não ficamos indiferentes a ele. O filme mais mal amado de “Guerra nas Estrelas” (embora tenha gente que não goste mesmo é do Episódio II) pode ter muitos defeitos, mas isso não significa que ele não tenha virtudes.

A sessão do Cineclube não foi marcada somente pela exibição e análise do Episódio I na palestra. Brian e Henrique também fizeram uma apresentação, com direito a fotos e vídeos, da história do Conselho Jedi Rio de Janeiro. Eles se lembraram do longo hiato sem filmes de “Guerra nas Estrelas” e da dificuldade que era de encontrar pessoas que gostavam da saga. Até que o surgimento da “Special Edition” possibilitou que muitas pessoas pudessem ver os filmes pela primeira vez no cinema. Isso estimulou Brian a escrever para a seção de cartas de “O Globo” para entrar em contato com outros fãs. E ele recebeu a resposta de Felipe Maia, atualmente dublador (ele inclusive é o dublador de Poe Dameron). Os dois, então, fundam o Conselho Jedi Rio de Janeiro (CJRJ) em 24 de agosto de 1997, num encontro no McDonald’s do Shopping Rio Sul. Já Henrique entrevistou Fábio Barreto para o jornal “Estado de São Paulo” e descobriu que o entrevistado era fã de “Guerra nas Estrelas”, o que o ajudou a conhecer o pessoal do CJRJ. Os fãs passaram a se conhecer melhor com o desenvolvimento da internet, onde aficionados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais interagiam progressivamente. No sexto encontro do CJRJ, em meados de 1999, falou-se pela primeira vez de se organizar uma Jedicon no Brasil, no mesmo ano em que surgia a “Star Wars Celebration” nos Estados Unidos. O lançamento do “Episódio I” no cinema só alavancou ainda mais a organização dos fãs e estimulou encontros em nível nacional (leia-se ainda Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais). Aliás, 1999 foi um bom ano para o CJRJ, que apareceu na tv pela primeira vez. Brian e Henrique apresentaram o vídeo dessa entrevista e ela foi marcada pelos caracteres trocando os nomes dos integrantes do grupo e as ambições ainda muito pequenas como se reunir para ver os filmes, trocar conversa no bar ou fazer camisas.

Outro detalhe interessante na palestra foi a lendária viagem de 7641 km de Brian a Nova Iorque para assistir a estreia de “Ameaça Fantasma”, com o dinheiro de seu FGTS, depois de ser demitido de uma empresa que ia mal das pernas. Ele comprou o ingresso pela internet para uma sessão às oito da manhã. O fato chegou a ser noticiado no jornal sensacionalista de São Paulo “Notícias Populares” com tom de certa galhofa. Foi exibido um vídeo da fila no dia da estreia. Brian retorna ao Brasil sem dar qualquer “spoiler” sobre o filme e disse que no início gostou da película, mas depois de revê-la algumas vezes, passou a achar o filme “chato”. Aqui no Rio de Janeiro, o filme teve uma estreia marcante no Leblon 1, onde muitas pessoas se aventuraram a fazer cosplay (foi a primeira vez que isso aconteceu) e Henrique até simulou um duelo de sabre de luz no palco do cinema. Trailers como o da animação da Disney “Tarzan” eram vaiados e, quando o filme começou efetivamente, foi uma gritaria tresloucada até os quinze primeiros minutos de película. Uma matéria veiculada no “Globo”, que, na época, fazia propaganda na tv das manchetes do dia seguinte, ajudou a promover a estreia do filme que lotou e forçou o Leblon 2 a fazer uma sessão extra para quem ficou de fora. Esses momentos também foram documentados em vídeo e exibidos na palestra.

A euforia do lançamento de “Ameaça Fantasma” ajudou a alavancar as Jedicons pelo país. A ideia inicial foi fazer Jedicons itinerantes em cada Estado, sendo a primeira em São Paulo. Mais um vídeo, agora de uma reportagem da tv Bandeirantes, testemunhou esse momento. A primeira Jedicon foi numa igreja (!) e teve um concurso de cosplayers. A MTV também cobriu o evento e pudemos ver Marina Person entrevistando vários fãs. O evento contou com cerca de 700 pessoas e a divulgação foi mais na panfletagem do que qualquer coisa. Em 2000, ocorreu a primeira Jedicon do Rio de Janeiro, na UERJ, então o local que reunia as melhores condições de estrutura e transporte. Foi feito um vídeo de abertura para o evento, com uma edição muito artesanal, onde dois videocassetes foram utilizados. Foi exibido um vídeo com uma matéria do Vídeo Show da Globo sobre o evento. Esse evento contou com cerca de 500 pessoas. Em 2001, seria feito um grande encontro em Minas Gerais, mas ele não aconteceu, sendo feito em São Paulo. Em 2002, o encontro seria no Rio de Janeiro, mas, embalados pela estreia do Episódio II, os fãs de São Paulo também quiseram fazer o evento. Assim, pela primeira vez, cada Estado fez sua própria Jedicon, como ocorre até hoje. Em 2005, com a estreia do Episódio III, a Jedicon do Rio de Janeiro teve 2500 pessoas. No ano de 2013, o Planetário da Gávea queria fazer um evento de Guerra nas Estrelas e convidou o CJRJ para pensar em algo. Mas, como o CJRJ já organizava as Jedicons, foi feita a primeira Jedicon no Planetário, dando um público de cerca de dez mil pessoas. Em 2014, o evento não aconteceu por falta de patrocínio e também porque os organizadores não queriam fazer um evento de nível menor. Isso sensibilizou a imprensa e o jornal “O Globo” até fez uma reportagem, assim como a Secretaria Municipal de Cultura procurou o CJRJ. Mas em 2015, o evento voltou com força total, através de uma campanha bem sucedida de “crowdfunding” (ou a popular “vaquinha”) na internet, que arrecadou o dobro da meta, mostrando a vontade dos fãs em ajudar. Isso atraiu patrocínios e a Jedicon do Rio de Janeiro pôde trazer seu primeiro convidado internacional, o lendário escritor Timothy Zahn (antes disso, o único convidado internacional havia aparecido na Jedicon de São Paulo, que foi ator Jeremy Bullock, que interpretou Boba Fett na trilogia clássica). Outro fator positivo de 2015 foi a realização de cinco Jedicons pelo Brasil, alavancadas pelo lançamento de Episódio VII, o que mostra o interesse cada vez mais crescente em cima de Guerra nas Estrelas em nosso país.

Ufa! Dá para perceber como essa sessão do Cineclube Sci Fi deu pano para a manga. Isso tudo é a prova de como esse evento, já em seu quarto ano, se firma cada vez mais no calendário cultural da cidade e alimenta a cultura geek e nerd. Fica aqui mais uma vez o convite para você comparecer ao próximo evento e fazer novas amizades.

Depois do evento, uma esticadinha para colocar as conversas em dia

Depois do evento, uma esticadinha para colocar as conversas em dia

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