O Que Rolou No Cineclube Sci Fi De 8 De Outubro (“Tropas Estelares”).

No último dia 8 de outubro, o Cineclube Sci Fi apresentou, no Planetário da Gávea, o filme “Tropas Estelares”, de Paul Verhoeven. Com roteiro escrito por Edward Neumeier, baseado no livro de Robert Heinlein, esse filme é altamente inquietante, mesmo que tenha sido feito em tom de galhofa. Todo mundo o conhece como o “filme dos insetos gigantes” e que causou uma certa polêmica quando foi realizado lá no já longínquo ano de 1997.

Cartaz do Filme

A história se passa num futuro onde o Estado tem características totalmente fascistas. As pessoas têm direito à cidadania somente se prestarem serviço militar, algo bem ao estilo do que Adolf Hitler escreveu em seu livro “Mein Kampf” (Minha Luta), quando esteve na prisão, depois de uma tentativa fracassada de golpe de estado. Somente a violência resolve as coisas. É o que os professores ensinam nas escolas para alunos inteiramente relapsos que mal prestam atenção às aulas, preferindo joguinhos banais de sedução. Um serviço de propaganda, bem ao estilo das famosas propagandas nazistas de Joseph Goebbels, materializadas nos filmes de Leni Riefenstahl, faz a cabeça das massas. Todo esse paraíso nazista viveria na mais perfeita harmonia, não fosse uma ameaça que viria do outro lado de nossa galáxia, mais precisamente do planeta Klendathu, um mundo árido e inóspito que possui uma espécie alienígena insetoide. E esses insetos são bem grandinhos e irracionais. Eles enviam asteroides em direção à Terra para destruí-la (já não vimos isso em “Yamato”?) e, assim, a espécie humana vai em direção ao planeta alienígena para atacar esses insetos que tem o hábito de mutilar humanos. E aí voa muito sangue, braços, pernas e algumas pernas de barata também.

Os insetinhos gigantes

O filme tem vários elementos a serem discutidos. É claro que a exaltação de todo esse conteúdo nazista é uma crítica ferrenha ao militarismo e ao estado autoritário. A fórmula da propaganda recheada de humor negro é extraída de “Robocop” (1987), dirigido pelo mesmo Verhoeven. Todo esse quê autoritário da humanidade faz com que os insetos sejam mais apreciados do que odiados e existe um certo prazer sádico de a gente ver todos aqueles babacas sendo esquartejados e retalhados vivos. É interessante perceber que todo o fardo do fascismo ficou relegado a pessoas com nomes de origem espanhola e alusões a países do Terceiro Mundo. Assim, os insetos destruíram Buenos Aires e os protagonistas tinham nomes como Rico, Carmen e Flores. Não há alusões a pessoas da Europa Ocidental ou Estados Unidos, tal como se esses países ditos desenvolvidos fossem o bastião da democracia e eles não dessem mais as cartas nesse futuro fascista distópico, tarefa essa atribuída aos países hoje ditos menos desenvolvidos ou de passado fascista, como o Japão.

Alguém tem um chinelo aí???

Quanto à parte militar, tivemos muitas alusões à Segunda Guerra Mundial, onde as naves espaciais mais pareciam enormes navios movendo-se lentamente, e desembarques de blocos de soldados prontos para serem esfolados vivos como aconteceu nas praias da Normandia no famoso Dia D. Mas não houve apenas referências à Segunda Guerra Mundial. Elementos que lembravam a Guerra do Golfo de 1991 também aparecem, seja no espetáculo midiático, onde repórteres apresentavam a guerra ao vivo pela televisão “in loco” ou pelos ataques de plasma realizados pelos insetos contra as naves espaciais humanas que orbitavam Klendathu. Impossível não se recordar das baterias antiaéreas de Bagdá disparando inutilmente contra os aviões americanos, muitos metros acima, que bombardeavam a cidade. No caso do filme, é citado que os disparos de plasma não seriam perigosos, mas aqui eles realmente destruíram seus alvos.

O filme teve bons efeitos especiais (foi recebida uma indicação ao Oscar por essa categoria naquele ano), tanto por parte dos insetos quanto por parte das naves espaciais, apesar de algumas imprecisões tais como o famoso “fogo no espaço”, algo impossível pela ausência de oxigênio. A gente consegue notar a qualidade dos efeitos pelo simples fato de que eles são altamente convincentes até hoje, praticamente vinte anos depois de a película ter sido realizada.

Rico e Carmen. A menina era muito mais inteligente…

Se o filme teve bons efeitos especiais, o mesmo não se pode dizer dos atores. Os protagonistas (Casper Van Dien e Denise Richards) eram muito fraquinhos, tadinhos. O personagem protagonista, Johnny Rico, era burro de dar dó, e somente alcançava altos postos militares quando seus superiores eram retalhados pelos insetos. Já Carmen, era uma menininha serelepe que ora namorava Rico, que era da infantaria e fazia o trabalho sujo de “dedetizar” os insetos, ora namorava um militar que pilotava naves assim como ela, e a moça somente ficava lá com aquele risinho inocente. O filme ainda contou com o ator Jake Busey, que era um amigo próximo de Rico na infantaria (ele fez o maníaco religioso e terrorista de “Contato”, com Jodie Foster) e Neil Patrick Harris, que interpretou Carl, o mais inteligente amigo de Rico e de Carmen na escola, e que passou a fazer parte da inteligência na luta contra os insetos. Esse ator é conhecido pela série “How I Meet Your Mother” e pelo filme “Garota Exemplar”. Os atores mais das antigas que participaram do filme foram Michael Ironside (que trabalhou na série de tv “V, a Batalha Final” e em “Vingador do Fututro”, de Arnold Schwarznegger) e Clancy Brown (o vilão do primeiro filme do “Highlander”).

Após a exibição do filme, tivemos a tradicional palestra. Dessa vez, os convidados foram Naelton Araújo, astrônomo do Planetário da Gávea, e Clinton Davisson, formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado em Comunicação Social e presidente da Associação Nacional dos Escritores e Leitores de ficção científica. Clinton começou sua explanação dizendo que, quando “Tropas Estelares” estreou no cinema, James Cameron disse que já tinha feito esse filme e ele se chamava “Aliens, o Resgate”, também baseado no livro “Tropas Estelares” (os elementos militares do livro também estão presentes no filme de Cameron, por exemplo). Clinton continuou, dizendo que, à época em que “Tropas Estelares” foi lançado, o filme não teve um grande sucesso (custou 105 milhões de dólares e arrecadou apenas 121 milhões de dólares). O fracasso deve ter se devido principalmente à má atuação dos atores protagonistas Casper Van Dien e Denise Richards, muito fracos. O filme teve problemas de continuidade, sendo “solucionado” muito rapidamente nos dez minutos finais, depois de se arrastar por alguns momentos. Fica também inexplicado o fato de Carmen, que teve o ombro perfurado por um inseto gigante, sair correndo como se nada tivesse acontecido e, depois, ainda sair abraçada com seus amigos e um baita sorriso estampado no rosto. Clinton ainda atentou que a característica do filme que mais o atrai é o tom de deboche com relação à ideologia nazista e os regimes autoritários em geral, principalmente na questão da propaganda, como acontece também na Coreia do Norte ou no famoso DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) do Governo Vargas. O palestrante lembrou (como já foi dito aqui) que esse modelo midiático já havia sido usado em “Robocop”. Clinton mencionou que um dos motivos pelos quais “Tropas Estelares” não tenha sido compreendido em sua época é que se trata de um filme de ação, mas que pelo seu tom de deboche também era um filme que convidava à reflexão, algo pouco esperado em filmes de ação, onde “Matrix” foi um modelo de filme de ação reflexivo mais aceito. “Tropas Estelares” é anterior à “Matrix”. A questão da cidadania somente atingida com o serviço militar é outro fator lembrado por Clinton, típica dos estados fascistas. E aí, há uma comparação do filme com o livro. Carmen reluta em namorar Rico e se sente mais atraída por um militar de carreira, pois os pais de Carmen nutrem um preconceito contra os pais de Rico, pois os últimos não eram considerados cidadãos, já que não fizeram o serviço militar. Esse elemento não aparece no filme (a cena foi deletada) e ajudaria a explicar um pouco mais o comportamento dúbio de Carmen.

Cena do banho. Nudismo e discussões sobre o futuro

Naelton começou sua palestra dizendo das influências que o filme. Inicialmente (e obviamente) o livro de Robert Heinlein, vencedor de vários prêmios Hugo, e onde os personagens usavam grandes exoesqueletos para lutar contra os insetos. Esse recurso foi ignorado no filme, já que era a intenção do diretor mostrar muitas mutilações humanas e assim criticar o militarismo. Um anime japonês de nome “Gundan” (1979) também usava exoesqueletos. Naelton também se lembrou de “Aliens, o Resgate” (1986) (o exoesqueleto de Ripley e os fuzileiros) e “Robocop” (1987) (a máquina de propaganda, regada a muito humor negro) como referências. O palestrante se lembrou de que a história do livro é muito distante do filme. Rico, no livro, é filipino, por exemplo. E o livro exalta o militarismo (Heinlein era de centro-direita), enquanto que o filme o ridiculariza. No livro, apenas a mãe de Rico morre. No filme, pai e mãe morrem. Naelton ainda fez uma comparação entre os símbolos apresentados no filme e os símbolos nazistas, assim como as roupas dos militares, curiosamente todas feitas pela Hugo Boss. Com relação às naves, Naelton ficou inquieto com a lentidão delas e com o fogo no espaço, num lugar sem oxigênio para queimar. O mapa esquemático da Via Láctea também colocava o planeta Terra fora de posição, praticamente na borda do sistema de estrelas e citou o absurdo que é lançar asteroides de Klendathu, do outro lado da galáxia, para a Terra. O astrônomo também mencionou que o filme teve algumas continuações, mas sem a mesma qualidade, assim como falou que o filme mexe com o medo humano de insetos. A cena onde todos tomam banho coletivamente, homens e mulheres, foi cinematograficamente bizarra para o palestrante, pois um dos soldados perguntava aos outros sobre suas aspirações individuais quando o que mais chamava a atenção eram os corpos nus e não se dava muita atenção às falas dos personagens.

Inspiração fascista…

Clinton retomou sua fala e se lembrou de que o filme desenvolve melhor os personagens, sobretudo os femininos. Já o livro o faz de forma menos satisfatória. E Clinton inclusive acha que isso é uma tendência nos livros de ficção cientifica em geral, ou seja, que os personagens não são tão desenvolvidos, algo que não ocorre, por exemplo, em “Game of Thrones”. Naelton faz uma intervenção e lembra que o personagem de Rico não é muito desenvolvido no livro e ele é muito “burrinho” no filme, sendo realizador de trabalhos mecânicos e somente subindo de patente à medida que seus superiores morrem, enquanto que Carmen e Carl vão subindo a mais altos postos por sua competência. Carl inclusive consegue manipular a mente de Rico num momento do filme. Flores, (interpretada por Dina Meyer) era a verdadeira chefe do pelotão ao invés de Rico, embora o livro tenha dito que era uma tendência natural das mulheres ocuparem o posto de piloto de naves, algo que Carmen fazia.

Após a palestra, houve a parte de perguntas, onde o público explanou uma série de questões que alimentaram ainda mais o debate e o tradicional sorteio e distribuição de brindes. Mais um cineclube concluído e mais uma ótima tarde onde tivemos um bom filme e boas reflexões. Ratifico sempre o convite aqui do leitor aparecer no próximo cineclube neste ano de 2017. Veja o vídeo dessa palestra e as datas dos próximos cineclubes em www.facebook.com/jedirio

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