O Que Rolou No Cineclube Sci Fi de Abril (“Wall-E”)

O Cineclube Sci Fi, em sessão realizada no último dia 16 de abril, sempre no Planetário da Gávea, exibiu a animação da Disney/Pixar “Wall-E”. Foi mais um filme de ficção científica que, apesar de dedicado mais ao público infantil (a plateia estava mais cheia do que o de costume, com muitas crianças), suscitou muitas discussões e reflexões, que é definitivamente o que acontece de melhor em todos esses encontros.

Vemos aqui a história de um robozinho de nome Wall-E, que vive num planeta Terra do futuro, abandonado e coberto de lixo. Ele tem apenas uma baratinha cascuda como companheira e passa o dia catando e compactando lixo em pequenos cubos, empilhando-os e construindo torres de sucata do tamanho de arranha-céus abandonados. Wall-E também tem a mania de guardar coisas e até de assistir a antigos musicais no seu aparelho de videocassete, conferindo-lhe uma memória afetiva. Um belo dia, vem do espaço uma robozinha, Eva, muito temperamental e armada com perigosos raios, pela qual Wall-E se apaixona instantaneamente. Mas será difícil para o robozinho se aproximar de Eva, muito determinada em cumprir sua missão. Aos poucos, ele consegue e Eva passa a gostar dele. Os dois chegam até a trocar pequenos beijinhos na forma de centelhas elétricas! O namorico parecia ir muito bem até que Eva localiza o objetivo de sua missão, que é uma plantinha. Ela capturou o pequeno vegetal e foi embora, não sem ser seguida por Wall-E, até pelo espaço sideral. Eva chega a uma nave totalmente controlada por robôs que servem a humanos ociosos e gordinhos que têm todo o conforto da tecnologia em suas mãos.

Wall-E e Eva

Wall-E e Eva

Apesar de todos os sistemas da nave estarem sob o controle de robôs, o capitão da nave é humano e tem como imediato um robô que é a cara de HAL9000 de “2001, Uma Odisseia no Espaço”. Quando o capitão  descobre que Eva cumpriu sua missão, que era localizar uma plantinha, ele consulta os manuais antigos da nave (a viagem já dura setecentos anos) e descobre que é hora de retornar à Terra. Essas naves haviam sido construídas, pois a situação para a vida no planeta havia ficado insustentável com o lixo e a humanidade foi posta para viajar, ficando poucos humanos com os robôs na Terra para fazer a limpeza do planeta e torná-la novamente sustentável. A volta da vegetação (a plantinha em si) era o sinal de que os humanos deviam voltar. Mas o robô com cara de HAL9000 não deixava isso acontecer, pois uma outra mensagem posterior dizia que o planeta estava condenado e não se deveria voltar mais para a Terra. Entretanto, a plantinha era um sinal de que a vida poderia ser novamente possível em nosso planeta. Assim, passou a ser questão de honra para o capitão voltar para a Terra não somente para afirmar a sua autoridade perante os robôs, mas também para eliminar a ociosidade não somente dele como de todos os humanos, que ficaram dependentes demais dos robôs e do estilo de vida totalmente consumista imposto pela empresa que havia produzido tudo, desde os robôs até as naves. E, claro, Wall-E e Eva vão ajudar o capitão nessa cruzada para retornar à Terra.

Humanos gordinhos e ociosos no futuro...

Humanos gordinhos e ociosos no futuro…

Esse é um filme da Disney que alerta as crianças para dois problemas muito atuais: o consumismo e a sustentabilidade, temas profundamente interligados. Os confortos que as tecnologias dão às sociedades capitalistas desenvolvidas produzem pessoas extremamente ociosas e até bem gordinhas, uma característica muito gritante nos Estados Unidos. E esse conforto vem com um consumismo desenfreado que produz muito lixo e, consequentemente, polui o planeta, ameaçando a sua sustentabilidade. No caso de “Wall-E”, essas questões foram exibidas num nível extremo, onde as pessoas ficaram totalmente dependentes da tecnologia e totalmente consumistas, destruindo o planeta. A iniciativa do capitão em retornar para a Terra busca um espírito americano (ou estadunidense, como querem os mais puristas) primário: o do “self-made man”, ou seja, o do homem que obtém seus objetivos através do próprio esforço pessoal. É preciso reconstruir nosso lar, o planeta Terra, que foi destruído por nós mesmos. E que, para podermos nos mexer para conseguir isso, precisamos vencer o consumismo, o ócio e a dependência total para com a tecnologia, ou seja, o homem deve se libertar das próprias armadilhas para que criou contra si próprio. Essa é a grande mensagem (e alerta) que a animação pretende divulgar. Mas não podemos nos esquecer que essa também é uma bonitinha história de amor entre dois robozinhos. E aí, a Disney/Pixar deve receber todos os aplausos, pois conseguiu criar imagens de robôs totalmente humanizadas, numa materialidade visual de máquinas desprovidas de emoção. Os olhos de Wall-E, lentes grossas e profundas que lembram teleobjetivas, mostravam um toque de melancolia e fragilidade. Já Eva, um robô com um design mais enxuto, também expressava uma gama maior de emoções no seu pequeno monitor onde podíamos ver Eva rindo, sentindo raiva ou tristeza. A humanização desses dois robozinhos foi realmente algo marcante e sedutor tanto para crianças quanto para adultos.

Um robozinho muito solitário...

Um robozinho muito solitário…

Após a exibição do filme, houve a tradicional palestra com convidados. Desta vez, tivemos a presença de Rafael Pinotti, M.Sc. em Físico-Química pela UFRJ, onde se graduou em Engenharia Química e cursa atualmente doutorado em Astronomia. Trabalha desde 1990 na Petrobras como Engenheiro de Processamento, tendo experiência nas áreas de automação industrial, operação, hidro refino, emissões atmosféricas e planejamento do refino. Publicou artigos sobre formação e atmosferas de planetas extra-solares, vários artigos técnicos na área de engenharia, e um livro – Educação Ambiental para o Século XXI. A palestra ainda contou com a presença de Luisa “Lully” Clasen, Bacharel em Cinema e Vídeo pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP), cursada em Dublagem, Storytelling e Continuidade. Trabalhou para o youPIX (site + festival sobre cultura de internet) e mantém com grande sucesso o canal “Lully de Verdade”, que conta com 261 mil inscritos, onde faz vídeos semanais sobre diversos temas culturais, especialmente cinema. Lully começou a palestra falando que “Wall-E” é uma das animações que faz de forma mais direta a comunicação de ideias tanto para crianças como para adultos. É um filme que interage o espaço (o “lá fora”) com a Terra (a nossa casa). Lully também lembra que a principal característica do robozinho Wall-E é a sua curiosidade e que ele contamina todos à sua volta com esse espírito de curiosidade, inclusive os humanos da nave. A curiosidade de Wall-E faz o capitão da nave analisar a Terra. E, ainda, devemos recordar que Wall-E, ao revirar o lixo, guarda pequenos objetos que encontra, além de ver filmes, sobretudo musicais, o que lhe dava uma conexão emocional. Já Eva, num primeiro momento, funcionava totalmente pautada nas diretrizes para as quais estava programada, se “humanizando” mais à medida que aprofundava seu relacionamento com Wall-E. Lully menciona que o fator que mais estimula a ciência é a curiosidade. Já Pinotti menciona três aspectos do filme. O primeiro é a já citada curiosidade, o que daria aos robôs um nível de autoconsciência, algo do qual a nossa ciência ainda está muito longe (se alcançar esse estágio), pois os computadores de hoje em dia apenas processam informações. O segundo aspecto é o número alto de alusões explícitas a “2001, Uma Odisseia no Espaço”, filme dirigido por Stanley Kubrick, inspirado no livro homônimo de Arthur C. Clarke, onde o robô “mau” da animação (o imediato do capitão que tenta de todas as formas evitar que os humanos retornem à Terra, pois isso violaria a sua programação) é uma referência direta ao robô HAL9000 de “2001”, com um olho vermelho e tudo, sendo mais pensativo que Wall-E. Outras características que nos remetem a “2001” são as referências musicais (“Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss, e “Danúbio Azul”, de Johann Strauss II). E o terceiro aspecto é o pessimismo quanto ao futuro da raça humana no espaço em “Wall-E”. Enquanto que em “2001” já havia colônias humanas na Lua, em “Wall-E” os humanos precisam fugir da Terra, pois a encheram de lixo. Outro detalhe é que a  interação entre robôs e humanos em “Wall-E” é muito pouca. Os humanos somente aparecem da metade do filme em diante. Assim, as três leis da robótica de Isaac Asimov não valeriam em “Wall-E”, que é mais um filme de interação entre robôs.

Robôs humanizados

Robôs humanizados

Pinotti alertou para um problema em “Wall-E”. A extinção da vida na Terra não se daria de forma tão fácil quanto é vista na animação. A vida em nosso planeta já existe há 3,5 bilhões de anos e é muito resistente. Assim, muito provavelmente aquelas cidades cheias de lixo que vemos no filme estariam cobertas de vegetação. Para se ter uma ideia, depois do acidente nuclear na Usina de Chernobyl na União Soviética em 1986, uma área de trinta quilômetros foi isolada em volta da usina, mas foi encontrada por lá vida vegetal e animal. Logo, a vida selvagem vai tomando conta de tudo e o panorama desolador visto em “Wall-E” não aconteceria. A complexidade da vida pode até torná-la mais vulnerável, mas, ao contrário, formas menos complexas de vida, como os vegetais, são mais resistentes.

Um outro aspecto mencionado por Pinotti em “Wall-E” é que não há contato dos humanos com formas de vida alienígena no espaço, ao contrário do que é visto em filmes como “Jornada nas Estrelas”. A humanidade na animação não se desenvolveu, mas sim emburreceu e diminuiu a sua chance de entrar em contato com inteligências extraterrestres. Aliás, essa forma de contato é uma coisa extremamente difícil, pois viagens interestelares são impossíveis e, há cinquenta anos, sinais da rádio pelo Universo são rastreados pela raça humana e, até agora, não foi encontrada qualquer evidência de vida alienígena. Ainda, desde 1995, mais de 2000 planetas fora do sistema solar foram descobertos e a maioria deles não apresenta condições para manter a vida tal como a conhecemos aqui na Terra, tornando a vida complexa um fenômeno um tanto raro.

Os palestrantes: Lully e Pinotti

Os palestrantes: Lully e Pinotti

Pinotti ainda se lembrou de um fato curioso: se um dia encontrarmos evidências de que houve vida em Marte, isso pode dizer que talvez o mesmo possa ocorrer na Terra, ou seja, que a vida deixe de existir, mesmo que saibamos que ela seja resistente. Ainda há outro problema: conhecemos apenas os parâmetros de vida aqui na Terra para procurarmos vida em outros planetas, o que pode limitar nossa visão de busca. Sabemos, por exemplo, que a presença de água é muito importante para que haja vida. Há muita água no Universo, mas há poucos planetas suficientemente distantes de suas estrelas para que haja água líquida neles, uma condição para que tenha vida. E, mesmo que isso aconteça, não significa que o planeta em questão tenha desenvolvido vida. Pode haver planetas com água líquida como a Terra, mas sem vida.

Os premiados no sorteio de brindes com Brian Moura, presidente do Conselho Jedi Rio de Janeiro (com o escudo do Capitão América).

Os premiados no sorteio de brindes com Brian Moura, presidente do Conselho Jedi Rio de Janeiro (com o escudo do Capitão América).

Lully volta à palestra recordando da casa de Wall-E, que tem outros robôs de seu tipo, totalmente desativados. Wall-E pode ter sobrevivido justamente por sua curiosidade e por usar as peças dos robôs desativados como peças de reposição. Ainda sobre a questão da resistência da vida,  Lully lembra da amiga baratinha de Wall-E, capaz de sobreviver até a tragédias nucleares. A palestrante ainda menciona que Wall-E tem uma “carinha” de PC ao passo que Eva tem mais uma “carinha” de Mac (a Pixar foi comprada de George Lucas por Steve Jobs e há várias referências à Apple na animação, sendo verdadeiros “Easter Eggs”). Ainda na trilha da curiosidade, Lully lembra que, com o fim dessa curiosidade, as barrigas das pessoas aumentaram, pois elas se tornaram passivas, preocupando-se apenas com a diversão e se esquecendo de seus deveres. Gerações de humanos passivos e obesos na nave da animação são uma alusão a obesidade como epidemia nos Estados Unidos e a essa cultura de diversão e esforço mínimo. Somente a volta da curiosidade impulsionaria esses humanos a retornar à Terra e a reconstruí-la. A passividade era tanta que os humanos não sabiam nem o que havia na própria nave. Lully recorda que o humano tem um apego à rotina, mas também espírito de curiosidade. Foi também lembrado que, embora o filme faça uma crítica à sociedade de consumo, apenas uma pequena parcela da humanidade tem acesso ao consumo ilimitado, sendo que a grande maioria vive na subsistência. Lully também menciona que a película traz a mensagem de não poluir o planeta com lixo e que muito lixo procedente da informática aparece na animação, pois os aparelhos ficam rapidamente obsoletos. É recordado, ainda, a temática da solidão, tanto para o robozinho Wall-E, que fica fascinado e apaixonado ao ver Eva, quanto para os humanos da nave, onde não vemos núcleos familiares, com as crianças em creches, sem contato com os pais. Lully ainda recorda que o fogo e a faísca elétrica, presentes nas interações entre Wall-E e Eva, são coisas quentes e metáforas do desejo entre robozinhos.

Estes foram alguns dos assuntos abordados na palestra que ocorreu depois da exibição do filme, havendo, depois, as perguntas do público e o sorteio de brindes. Assim foi mais uma sessão do Cineclube Sci Fi. Um bom filme, uma boa palestra, abrindo espaço a muitas reflexões e o bom clima de camaradagem de sempre. Mês que vem tem mais! Por enquanto, não deixe de curtir o “trailer” abaixo.

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